Paixão política e religiosa – Artigo do Dr. Joaci Góes em Tribuna da Bahia – 02/02/17

Paixão política e religiosa

Quando, aos vinte anos de idade, li, em Kant (Immanuel Kant, 1724-1804), que o homem estava condenado a nunca se libertar da paixão política, nem religiosa, pensei que o grande pensador alemão, da Prússia Oriental, que nasceu viveu e morreu sem jamais ter saído de sua pequena cidade natal, Königsberg- a partir de 1946 incorporada ao território da Ucrânia, berço, também, de Hannah Arendt -, se enganara, redondamente, quanto ao potencial conflituoso da religiosidade, porque supunha que as discórdias dessa origem se houvessem sepultado com as Cruzadas, sobrando, apenas, naquela ocasião, os rescaldos bélicos entre protestantes e católicos, em países da Grã-Bretanha. Após o desmoronamento do socialismo, com a implosão do Império Soviético, em 1991, Francis Fukuyama escreveu o polêmico livro The end of History and the last man (O fim da história e o último homem), por supor que os conflitos, nos tempos modernos, resultavam, exclusivamente, de diferenças ideológicas. A História teria atingido, segundo ele, sua homeóstase ou equilíbrio, com a supremacia do Ocidente.

Essa percepção de Fukuyama resultou da relativa paz mundial, durante os 46 anos decorridos entre o fim da Segunda Guerra e a derrocada do comunismo, quando os Estados Unidos e a União Soviética foram os senhores de baraço e cutelo das relações internacionais. Respondendo a Fukuyama, Samuel Huntington escreveu, em 1996, o Choque das Civilizações e a reconstrução da ordem mundial (The Clash of Civilizations and the remaking of the world order), onde sustentou que, em substituição aos conflitos ideológicos, o mundo seria abalado pelo choque entre as diferentes civilizações, em que os valores culturais e o sentimento religioso passariam a desempenhar papel preponderante. Disse ele: “Minha hipótese é que a fonte fundamental de conflitos neste mundo novo não será principalmente ideológica ou econômica. As grandes divisões entre a humanidade e a fonte dominante de conflitos serão de natureza cultural. Os Estados-nações continuarão a ser os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos da política global ocorrerão entre países e grupos de diferentes civilizações. O choque de civilizações dominará a política global. As falhas geológicas entre civilizações serão as frentes de combate do futuro. ”

Desde o 11 de setembro de 2001, o mundo não tem mais dúvidas de que Kant sabia o que dizia na segunda metade do Século XVIII!

Esta breve reflexão vem a propósito dos infindáveis e cada vez mais surpreendentes desmandos praticados por Donald Trump, em todos os domínios das relações econômicas, sociais e políticas que se supunham pacificados no plano da aceitação das pessoas e das expectativas internacionais. Por mais que se queira buscar uma possível ordem sistêmica no caótico comportamento do bizarro presidente norte-americano, sua capacidade de surpreender parece infinita. Em razão do complexo caldo de cultura da sociedade americana, o que quer que ele faça encontrará, invariavelmente, adeptos fervorosos e inimigos ferozes, tudo isso conduzindo a um crescente e irrespirável clima de ódio em que mergulham os trezentos milhões de habitantes da terceira mais populosa nação do Planeta.

Pensamos que a maturidade das múltiplas e poderosas instituições americanas – além do Legislativo, do Judiciário e da Mídia – porá limites ao voluntarismo exacerbado do espalhafatoso e fanfarrão Presidente. Sua intolerância religiosa, porém, tem tudo para representar o mais difícil obstáculo ao cumprimento de sua agenda heterodoxa, pondo em risco sua segurança física, tendo em vista a ainda maior e irreprimível intolerância dos que se deixam guiar, cegamente, por uma fé excludente das outras. Trump pretende enfrentar com a mesma moeda a intolerância dos fanáticos muçulmanos que se deixam imolar para impor o primado de sua fé. É como querer apagar fogo com gasolina. A utilização do ódio como instrumento de superação de conflitos é receita certa para a tragédia. Dificilmente seu fim não será violento. Sua atitude de suspeitar de praticamente tudo que se realizou antes dele pode resultar de sua flagrante escassez de conhecimentos, como ensinou Francis Bacon, embora milite em seu favor o aforismo do mesmo pensador inglês segundo o qual “a dúvida é a escola da verdade”.

Como dissemos neste mesmo espaço, ao longo da campanha presidencial norte-americana, em artigo intitulado Are we trumped? (Estamos campados?), “uma possível eleição de Donald Trump constituiria um dos maiores fatores de desestabilização da ordem mundial, mais grave do que o terrorismo que estressa os povos dos quatro cantos da Terra.

Hitler já demonstrou a que isso pode nos conduzir”.

Joaci Góes

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