TRAJETÓRIA E LEGADO DE RÔMULO GALVÃO

Margarida Maria Costa Batista*

 A história começa na década de 30, em um arraial do município de Campo Formoso. O nome do arraial, Poços e os que lá nasciam eram de Poços de Campo Formoso. Hoje, no mundo da internet, em que temos disponibilizados de forma rápida meios sofisticados e eficientes de comunicação, pode-se imaginar o que significa nascer no interior do interior de um estado do nordeste brasileiro, o estado da Bahia.

Na escala dos privilégios os que nasciam na sede do município, ainda que considerado uma cidadezinha, eram privilegiados. Rômulo Galvão de Carvalho não estava entre eles, pois nascera no arraial de Poços de Campo Formoso. De origem humilde, filho de um pequeno agricultor e de uma dona de casa, teve em sua mãe, D. Djanira, de quem muito se orgulhava ,a sua grande incentivadora.No arraial tudo era mais difícil. Difícil mas não impossível para quem estava disposto a enfrentar desafios e correr riscos em função de um ideal. E era o caso de Rômulo. Fez o curso primário no arraial onde nasceu e logo se encantou pelas letras. Tudo que lhe caia às mãos – jornais e revistas velhos que serviam para embrulhar as mercadorias da mercearia onde trabalhava, um exemplar da Bíblia disponível em sua casa – era a porta de acesso para um mundo desconhecido com que se deslumbrava.  Esse deslumbramento o fez jurar que um dia chegaria lá. E chegou.

Vencido o primeiro degrau da caminhada, em uma trajetória de êxitos sucessivos foi cursar o ginásio na sede do município. Daí em diante, com a determinação e zelo que lhe eram característicos, sua vida pessoal e profissional tinha a marca da vitória, a cada etapa vencida. Vitória alcançada com muito estudo e trabalho.  Foi o segundo colocado em concurso que fez do Banco do Brasil. Paralelamente à carreira de bancário, fez o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, tendo sido aprovado em segundo lugar no vestibular. O emprego do Banco do Brasil lhe propiciou um respaldo financeiro para o seu aperfeiçoamento intelectual, inclusive o aprendizado da língua inglesa. Aprendizado de vital importância para quem, anos mais tarde, seria selecionado para fazer o mestrado em Administração Pública em Los Angeles, na Universityof Southern California, depois que se graduou em Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais.

Embora contemporâneos na Faculdade de Direito, só em Los Angeles tive a oportunidade de conviver com Rômulo. Colegas de mestrado na California, éramos um grupo de brasileiros – baianos, cariocas e gaúchos – que, engajados no mesmo projeto, formávamos uma colônia. É em situações que tais que melhor se pode avaliar as qualidades dos companheiros de jornada. E nesse teste Rômulo se sobressaia. Sem alarde, com sutileza, evidenciando uma indiscutível capacidade de observar as pessoas, transitava com facilidade no grupo, sempre disponível e pronto para ajudar quando necessário. Sem envolver-se em polêmicas ou desarmonia, mantinha distância respeitosa onde quer que fosse ou estivesse. Essa distância, marca registrada de sua atitude entre pares – professores, conterrâneos ou colegas de outros países – parecia não combinar com a sua profissão de fé expressa em seu bordão preferido – “I likepeople”. Para nós, mais jovens e menos experientes, a distância respeitosa não era bem o comportamento de quem gosta de gente. Carentes de maturidade, entendíamos que gostar de gente era demonstrar de maneira efusiva, popularidade e intimidade no seu entorno. E esse não era o comportamento de Rômulo, que primava pela discrição.

Concluído o mestrado, Rômulo volta ao Brasil, depois de dois anos de permanência no exterior, para iniciar a sua carreira de professor universitário. Na Escola de Administração formávamos o primeiro núcleo de professores com especialização em Administração Pública que, ao lado dos professores com especialização em Administração de Empresas, também com mestrado nos Estados Unidos – Michigan – seriam responsáveis pela formação de jovens que futuramente ocupariam postos de destaque no setor público e empresarial. Cada setor, de Administração Pública e de Administração de Empresas, tinha projetos específicos, em que os professores, além da função docente, desempenhavam outras atividades correlatas. Assim é que Rômulo logo foi designado para chefiar a Divisão de Pesquisa do Instituto de Serviço Público (ISP) – setor de extensão da Escola de Administração.

Na Universidade, Rômulo foi também chamado para desempenhar outros cargos, como o de Diretor do Departamento Social de Vida Universitária, e o de Chefe de Gabinete do Reitor, no reitorado de Roberto Santos.

Não tardou para que Rômulo ultrapassasse os limites da Universidade para ocupar com grande eficiência outros cargos na Administração Pública, como o de Secretário de Educação do Governo Estadual na gestão de Antonio Carlos Magalhães; Secretário da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação, onde interiorizou o atendimento a superdotados e a portadores de necessidades especiais em todo o Brasil, buscando a inclusão dos mesmos no ensino regular, dando visibilidade para garantir seus direitos na Constituição de 1988.

Ainda no poder executivo, Rômulo seria nomeado Delegado Federal do Ministério da Educação para o Estado da Bahia.

Membro da Academia Baiana de Educação, assumiu ainda por vários períodos a Presidência do Conselho Estadual de Educação.

Com indiscutível vocação política, candidatou-se e foi eleito deputado federal em váriaslegislaturas. Na Câmara de Deputados exerceu com brilhantismo a função de Presidente da Comissão de Educação e Cultura.

No exercício do mandato legislativo a educação foi sempre o centro da atenção e da atuação daquele que foi um exemplo de luta e dedicação para alcançar um espaço numa sociedade marcada pela desigualdade e pelo preconceito. Daquele que caminhou com determinação para alcançar o seu ideal e os objetivos que traçou para sua vida.

Sempre, ao longo de sua existência, fosse como estudante, professor, executivo, político, distinguia-se pela cordialidade, pela paciência, pela brandura, transitando pelos diferentes credos e convivendo pacífica e amistosamente com diferentes personalidades.  Não obstante, nesse transitar pacífico, era firme em suas posições e opiniões. Na condição de homem público Rômulo destacou-se como possuidor de rara virtude, a do correto exercício do poder. Amante do poder, ele o exerceu para realizar o benefício coletivo e não para dele locupletar-se e atingir objetivos pessoais.

Desse expressivo legado podem orgulhar-se os seus filhos, Rômulo, Paulo e Leonardo. Ainda jovens, recém saídos da adolescência  foram privados, trágica e subitamente, do convívio paterno. O pouco tempo de convívio, porém, foi suficiente para modelar-lhes a personalidade e o caráter. Na trajetória dos três filhos, hoje cidadãos dignos e vitoriosos na vida pessoal e profissional, foi decisiva a presença e orientação de Eliana. Mãe exemplar, soube conduzi-los com firmeza, cultivando-lhes a memória do pai, seu companheiro de jornada.  De outro plano Rômulo deve estar acompanhando orgulhoso, o percurso do Assessor do Banco Central, do Procurador da República e do integrante do quadro da Advocacia Geral da União.

A fatalidade que vitimou Rômulo Galvão, há 15 anos, em plena campanha eleitoral por mais um mandato legislativo, não apagou o trabalho por ele realizado e o legado do homem, exemplo de dignidade, força de vontade e capacidade de realização.

*Professora aposentada da UFBA e Mestra em Administração pela Universityof Southern California

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

5 Responses to TRAJETÓRIA E LEGADO DE RÔMULO GALVÃO

  1. José Oliveira says:

    Com esse baiano inteligente o meu conterraneo comprova que o brasil nasceu aqui demonstra que a Bahia precisa de politico dessa qualidade que lutou onde queria e chegou esse deputado Rômulo Galvão e o ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva Brasil você nasceu na Bahia O brasil é nordestino e não pode negar a sua origens Diga não preconceito e sim o sangue verde,amarelo e azul sou baiano sou brasileiro um abraço pra o povo de Antonio Gonçalves e campo Fomoso e todo o municipio!

  2. Olegário Gomes says:

    Muito bom, esse texto, me ajudou muito na pequisa sobre a vida do Rômulo Galvão.
    Quero saber se posso usa-lo no livro de ouro do Colégio Municipal Dr. Rômulo Galvão em Poços – Campo Formoso, no qual sou o diretor e o mesmo fará 25 anos no dia 22 de setembro de 2015.

    • elder says:

      Ilustre Professor Olegário Gomes, tem plena liberdade e satisfação minha que o livro de ouro da Escola Rômulo Galvão possa colocar nosso comentário. Realizamos um Curso de Filosofia, com aulas nas tardes de sábado, juntamente com um sarau poético-musical. Seria um prazer nosso sua vinda com seus alunos e alunas, no próximo sábado, onde o senhor receberia um diploma, em vista de sua escola ter o nome de Rômulo Galvão. Os alunos poderiam cantar, tocar violão, fazer alguma coisa que mostre como a escola está plenamente integrada no desenvolvimento e que tem valor. Avise, por obséquio, se aceita. Podemos nos comunicar pelos e-mails cepaadmin@gmail.com e germanomachado83@gmail.com. Um abraço, Germano Machado, Julio Vaccarezza, Elder Carlos dos Santos.

  3. Antonio Francisco de Freitas says:

    Estou residindo atualmente em Canoas-
    Resido em Canoas-RS, nasci no Município de Campo Formoso.

    Resido no Município de Canoas-RS. Sou filho de Francisco Antonio de Freitas, primo carnal de Djanira, mãe do Rômulo. A avó materna do Rômulo. era irmã de meu avô paterno Dos meus parentes aí de Campo Formoso tenho lembrança de Tia Benites, esposa de Flávio do Cartório Também tenho lembrança de Tio Pedro Galvão, Meus irmãos residem em Saúde. Abraços

    • elder says:

      Antonio Francisco de Freitas, o Deputado Federal e Secretário de Educação do Estado da Bahia pertenceu, quando jovem, ao movimento educativo-cultural CEPA que perfaz agora 66 anos de existência e seu fundador que lhe fala perfará 91 anos. Rômulo foi um rapaz e um adulto e, em suas funções políticas, sociais, pessoais de inegável valor. Sua família sabe deste assunto que comentamos na Academia Baiana de Educação, ideia do saudoso educador Hermano Gouveia Neto.
      Germano Machado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *