REENCONTRO DE IRMÃOS – Crônica de Ivan Dorea Cancio Soares*

Sempre acreditei que a amizade – quando verdadeira – não precisa de convivência diária, não necessita de idas constantes a todas as casas dos amigos, o que termina provocando problemas muitas vezes complexos e intermináveis… Também não significa que a ausência infinita ajude, pois esta tende a construir o esquecimento. A amizade verdadeira é alimentada por grandes e belas virtudes: honestidade, simplicidade, união, compreensão, solidariedade, são algumas delas. A comprovação disso está acontecendo agora conosco.

         Em nossos saudosos e queridos  tempos de Escotismo, éramos inseparáveis.  Inicialmente,  fazíamos parte efetiva do “Grupo  Escoteiro Lord Baden Powell”. Encontrávamo-nos todas as manhãs de domingo na Igreja da Piedade e, às vezes, durante qualquer dia das semanas. (No dia 27 deste mês, completarei 50 anos que ingressei no Escotismo; a minha primeira Patrulha foi a “Morcego” e o monitor era  Levy Andrade Ganem).  Em agosto seguinte, o Chefe Rodolfo  Buonavita Baqueiro Barros me transferiu para a Tropa Sênior, posto que completaria 15 anos em 27 de setembro e passei a integrar a “Patrulha Cruzeiro do Sul”, cujo monitor era Paulo Renato Dantas Gaudenzi. Afinal, em 26 de agosto de 1962, fiz a minha Promessa, recebendo as bênçãos de Frei Romano (ainda descubro alguma foto daquele dia; o Professor Ítalo Gaudenzi bateu algumas chapas; será que o filho de José Roberto Dantas Gaudenzi ainda as tem, Walter José?). A nossa vivência no “Baden Powell” foi grandiosa: recordo do Acampamento em Brotas (na chácara do Sr. Briglia; foi em início de novembro de 1962 e continua muito forte a sua lembrança em minha mente. Walter José prestou a sua Promessa nesse Acampamento). Lembro-me com imensa saudade da peça teatral “O Boi e o Burro no Caminho de Belém”, que encenamos junto com as Bandeirantes da Companhia Santa Maria Goretti, no Teatro do Colégio Maristas, em dezembro de 1962. (Não conseguíamos esconder as nossas paixões por algumas das belas meninas: eu, com Maria Eunice (Bice); Walter José, com Maria José; Luís Machado, com Tereza; gostaria de lembrar quem ficou apaixonado por Laurinha – ela era linda – mas, não consigo).

          Depois, o “Baden Powell” começou a entrar em colapso e surgiu um forte movimento de rebeldia, entre todos nós, contra o Chefe Rodolfo Buonavita,  movimento esse liderado principalmente por Roberto e Paulo Gaudenzi, Paulo Henrique Gomes Seixas e Walter José. Em junho de 1963, era instalado o “Grupo Escoteiro João XXIII”, fruto daquela rebeldia. Com exceção do colega Cezar José Franco Nobre Martins (quando residi em Belém do Pará – ano de 1980 – li em um jornal a morte dele), todos nós passamos para o “João XXIII” que nasceu como um Grupo valoroso, participando de todos os eventos do Escotismo e marcando a sua história com os Acampamentos realizados junto com as Bandeirantes (da Companhia Santa Maria Goretti e do Clã do Colégio Sophia Costa Pinto), tendo sido um na Vila de Jacupema (Mata de São João) e o outro em Dias D’Ávila, ambos em épocas  juninas; a participação na Quadrilha de São João das Bandeirantes da Companhia Santa Maria Goretti, no ginásio do Sesc (Aquidabã), em 17 de junho de 1967, quando conheci a doce Céu, que viria a ser minha namorada nos anos de 1968, 1969 e 1971, marcou profundamente a minha vida em particular; outros grandes acontecimentos foram a nossa presença nos Acampamentos no Campo Escola Sucuricanga (em Dias D’Ávila) e nas Cidades de Santo Amaro da Purificação, Itapetinga e Vitória da Conquista (estes últimos, em 1964, sob a orientação do saudoso Frei Lauro), o “Encontro São Jorge de Escoteiros” (na Casa de Retiro São Francisco, em maio de 1965), o “Jamboree Panamericano” (no Rio de Janeiro, em julho de 1965), o “Jamborinho” (na Praia de Inema, em 1966) e muitos outros mais…

          Recordo do jornalzinho “O Totem”, mimeografado, mas de uma atuação profundamente valorosa, com artigos corajosos e que difundiam amplamente as mensagens de cidadania e caráter exemplar do Lord Baden Powell e de uma vida plenificada em Deus que o Papa João XXIII transmitia.

          Lembrar de algumas Bandeirantes… Maria Eunice (Bice) e Céu Brandão ostentam os primeiros lugares: foram muito queridas namoradas minhas… mas, recordo com saudades de Clara (Bilu), Solange Freitas, Angélica, Neuza (“Linda Garça”), Aparecida, Dodoia, Tânia Mara, a bela morena Lígia e sua irmã Olívia Lúcia, as ótimas Chefes Ana Creuza e Safi… Não casei com nenhuma Bandeirante, mas Nádja, a minha Esposa querida, tem profunda admiração pelo Escotismo.

          Vivíamos literalmente mergulhados nos ideais de BP e fizemos dos mesmos o nosso sentido de vida; eu, particularmente, ainda reforcei os meus sonhos com os ideais de Dom Bosco (fundador dos Salesianos). Aos poucos, o Escotismo foi dando mostras de enfraquecimento em nossa terra baiana e o “João XXIII” não conseguiu fugir à regra. Um dia, creio que em l972 ou 1973, parou de funcionar. Cada um de nós seguiu o seu caminho. A diversificação das profissões escolhidas por cada um, afastou-nos. Durval (Curvelo de Almeida Filho), apesar de ter residido em quase todos os Estados do Centro-Oeste, Norte e Nordeste, manteve uma constante correspondência comigo, via telefone, correio normal e, depois, por e-mail, afirmando a grandeza da sua amizade. Thadeu (José Costa Santos Cruz), depois de 32 anos de completa ausência, reapareceu e me deu a imensa honra de prefaciar o livro dele. Levy (Andrade Ganem), após décadas de silêncio, encontrei na Internet e a alegria do reencontro demonstrou que a amizade continua a mesma. Adaltro (Rios), a última vez que nos vimos foi na Rua Carlos Gomes, casual e muito rapidamente, em outubro ou novembro de 2001. E Walter José, além de ser o único irmão de sangue, é irmão de ideais badenianos.

          Eu, vivo pelo Mundo, pois a profissão que escolhi terminou me fazendo um nômade. A Arqueologia tem me levado a lugares que, alguns, sempre sonhei em conhecer, outros que nunca pensei, lugares que variam dos maravilhosos aos mais deploráveis…, mas, vale muito a pena. Hoje, tenho um pé na terra querida da Bahia e o outro na deliciosa Belém do Pará, u’a mão no belo Rio de Janeiro e a outra no longínquo Rio Grande do Sul; tenho uma saudade da subida ao Vulcão Osorno (no sul do Chile) e uma grata recordação dos meus dias de Floresta Amazônica… Entretanto, a minha vontade de conhecer o Mundo começou com o Escotismo. A ele e à Arqueologia, devo o meu sonho de viajar. A eles devo a minha inspiração de vida, amparados pela fé em Deus e em Nossa Senhora que meus saudosos Pais e Dom Bosco me ensinaram a ter.

          Agora, acontece um REENCONTRO. Walter José, Durval, Thadeu, Levy e Adaltro. Quem mais conseguiremos encontrar? Parece-me o ressurgimento do “Grupo Escoteiro João XXIII”, brioso como nunca. Verdadeiro em seus ideais e construtor de cidadania. O reencontro nos uniu novamente. Até sempre.

          Salvador – Bahia, 13 de maio de 2012.

* Ivan Dorea Cancio Soares é Arqueólogo, Historiador, Prof. Universitário e Escritor.

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One Response to REENCONTRO DE IRMÃOS – Crônica de Ivan Dorea Cancio Soares*

  1. Levy Andrade Ganem says:

    Que belos tempos, “BELOS DIAS”, que bom que tivemos e ainda temos um grande historiador ( Ivan Dorea) além de Idealista de plena alma ESCOTEIRA.
    Realmente aquela epoca ficou gravada nas nossas memorias, forjando o carater de jovens assim como nós, caro Ivan Dorea, que mantemos vivo o ideal Escoteiro, cumpridores leais da nossa PROMESSA (Juramento).
    Obrigado nobre irmão Escoteiro IVAN DOREA que me fez relembrar saudosos momentos e de enriquecedoras emoções. Gostaria de por seu intermédio, fazer chegar este sincero depoimento, aos nossos leais companheiros e irmãos de ideal.

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